"Victory is mine!" (Stewie Griffin)
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Passei uma semana em Buenos Aires, de férias (coisa que eu nem sabia mais o que era, porque as últimas férias fiquei aqui pintando a casa). Voltei um lixo. Foi uma semana foda, diga-se de passagem. Diversão como há muito tempo eu não tinha na vida. Conheci pessoas incríveis, fui em festas podres, andei que nem uma louca, bebi mais que deveria, mas tudo valeu a pena. A cidade é linda e tudo, mas os pontos turísticos basicamente vão ficar para uma próxima vez. Fiquei a maior parte do tempo enfiada no albergue ou em clubes bagaceiras, cercada de pessoas loucas. Estou um caco, ainda. Óbvio que tive meus momentos clássicos: paixões e despaixões repentinas, crisezinhas de auto-estima rastajante, aperto no coração, nostagia do que eu não vivi, etc, etc. Mas, voltando pra casa, no avião, fiquei pensando em um monte de coisa que no fim das contas essa semana me ensinou.
É engraçado ver como as pessoas são diferentes. Como as culturas são diferentes, mas no fim com a mesma perspectiva. Conheci pessoas que vão viajar por um, dois anos. Outras que estavam ali mas não sabiam exatamente ao certo para onde iam depois. Outras que deram um tempo no trabalho e pretendiam voltar para casa em breve. Outras que nem casa tinham no momento. Outras que pensavam em começar uma vida nova. Eu estava apenas tirando uns dias longe da vidinha medíocre que levo, e que a tanto custo insiti em ter. É engraçado como a gente se apega às coisas pequenas. Como de repente ter um emprego, uma casa, móveis, etc, ganham uma importância gigantesca. E a vida não deveria ser feita disso. Invejei um monte de gente ali. Por causa do desprendimento deles com relação a esses assuntos de família-emprego-bens materiais-carro do ano- bolsas de grife- celulite- planos pro futuro. E nem falo de pessoas vagabundas, com aquele ar meio hippie de que foda-se o sistema, eu quero é andar pelo mundo. Não. Eram advogados, analistas de sistema, estudantes, etc. Pessoas como eu, de uma certa forma. Mas por outro lado, eles tinham esse desprendimento que tanto me falta. Eu não consigo mais me ver largando tudo e saindo por aí, em busca de aventuras. Bem que eu gostaria de fazer isso, juro que gostaria. Mas olho ao redor da minha casa e penso que não conseguiria mais viver longe disso tudo aqui. Cada pedacinho dessa casa mal montada é parte minha e me custou muitas noites de sono. Então não sei mesmo.
Essa viagem mexeu comigo. Me fez lembrar de certo modo de Into the Wild. A felicidade só é completa se partilhada. Me fez lembrar de quem eu sou, quem eu era e quem eu pretendia ser. E me fez aprender que de nada adianta ser aquilo que não se é, apenas se quer ser. Não adianta me esconder atrás de algo que eu não sou, pois sempre tem alguém que descobre a verdade. Na maioria das vezes, essa pessoa sou eu mesma. Amanhã volto ao trabalho. Segunda-feira a vida volta plenamente ao normal. Trabalho, academia, contas a pegar, roupas a lavar. E o verão que atropela a primavera e quer chegar mais cedo em São Paulo.
Tenho passado muito tempo conversando sobre música com um amigo esses dias. Não uma conversa de pessoas que se acham as grandes entendedoras do assunto, mas que sabem que o mesmo mexe com o nosso coração. Acho que é isso que está mantendo minha sanidade ainda um pouco na linha. Às vezes eu páro e percebo o quanto música me faz bem, e o quanto eu me apego a certas músicas. Tem uma canção do Frusciante que diz “my radio is my heart” e certamente é uma frase muito cabível a mim. Quem quiser pode substituir o rádio por i-pod, ou qualquer outra maneira que se escute música hoje em dia. Eu não gosto de mp3, devo confessar. Baixo pouquíssimos, na maioria dos casos, pra conhecer as coisas, daí se gosto, vou atrás dos cds. Sim, eu ainda compro cds. Eu, o meu amigo acima citado e mais umas 3 pessoas por aí. Ainda não sucumbi aos vinis, porque não tenho como ouvir. Não tenho uma vitrola, mas assim que pagar umas contas aqui, essa será uma futura aquisição. Mas enfim, seja como for, música é sempre bem-vinda.
E eu lembro de mim. Ouvindo música desde sempre.
Lembro de ouvir Roberto Carlos no carro do meu pai, quando eu ainda era criança e íamos ao supermercado. Lembro de ouvir Beatles por umas 5 horas seguidas em uma viagem com as pessoas que mais amo no mundo. Lembro de ouvir Jeff Buckley amanhecendo na praia com as minhas soulsisters ( ai, nostalgia maldita!). Lembro de ouvir Jorge Ben, em um vinil antigo também do meu pai. E aos 11 anos, lembro de pedir pra ele trocar o vinil da Xuxa por um da Legião Urbana. Doce, não? Depois, ouvir Oasis aos 13, em uma loja de discos, onde eu dei meu primeiro beijo e achei estranho, obviamente. Até chegar ao dia em que ouvi um garoto cantando Pulp para mim e desde então eu nunca mais fui a mesma. Assim como os dias em que ouvia Bob Marley e sentia vontade de ir pro banheiro daquele bar imundo, chorar um pouquinho. E lembro de ouvir Frusciante quando eu era jovem e chorar um monte. E ouví-lo hoje e chorar um pouco menos. Mas só um pouco. Lembro de ouvir Smiths na minha antiga cidade, com as melhores amigas que eu já tive, andando de carro em busca de algo para fazer. Lembro de ouvir PJ Harvey com a minha ursa de estimação. Saudades dela. Sempre. Lembro de ouvir Tender e a minha irmã dizer que essa música era a minha cara. E lembro de ouvir Zutons em um quarto de hotel e ter certeza que eu estava vivendo uns dos meus dias mais felizes, embora felicidade naquele momento fosse algo bem distante na minha vida. E também lembro de ouvir Violent Femmes e dançar como se não houvesse amanhã. Na sala da minha casa. Só eu e o meu amigo. Tudo bem que eu estava sob influência, mas a felicidade era plena e genuína. Assim como era verdadeira a felicidade que eu sentia quando ouvia Supremes fazendo faxina na minha casa nova. A mesma casa onde várias vezes eu cheguei junto com o dia, o coração em pedaços e ouvi o Jarvis me pedindo “don’t let him waste your time”. Eu sempre deixei. E ouvia Beat it sempre que meu celular tocava, um ano antes do Michael Jackson aceitar morrer. Ah, e lembro de ouvir Dusty Springfield nas tardes de domingo, acompanhada de uma garrafa de vinho branco que eu insisto em beber no gargalo, porque não tenho taças. E lembro de ouvir Nelson Gonçalves na cozinha da minha mãe, todo mundo bêbado e feliz no natal passado. E lembro de, há muito tempo, ouvir Radiohead e pensar: “fodeu!”. Lembro de ouvir Pearl Jam e REM na casa da minha prima, em tardes intermináveis e adoráveis. E lembro de ouvir Los Hermanos com minha irmã e cantar a plenos pulmões. E dançar ouvindo Bowie, num sábado de manhã, cozinhando na minha antiga casa. De novo com ela e a ursa. Ai, e como eu lembro de ouvir Arctic Monkeys e Libertines e sonhar, sonhar um sonho que nunca chegou e do qual eu acho que desisti. Às vezes.
E agora estou aqui. Ouvindo Dylan, porque o amigo citado lá no comecinho não vai me deixar em paz enquanto eu não virar uma especialista em Dylan. Nem feliz nem triste. Mas com o coração cheio. My radio is my heart.