Para muitos, Anticristo será o filme mais chocante que verão em suas vidas. Tenho os dois pés atrás com esses filmes feitos para chocar, mas fui ao cinema com boa-vontade e expectativas. Talvez porque simpatize com a obra de Lars Von Trier, ou simplesmente por curiosidade. A sequência inicial do filme é de uma beleza quase constrangedora. Enquanto os pais transam passionalmente, o filho pequeno apronta sozinho pela casa. As imagens são belas e a trilha, dramática. Há um equilíbrio impressionante entre as duas situações. Em câmera lenta e preto-e-branco artístico, closes pornográficos convivem em harmonia com a inocente queda de uma criança pela janela do apartamento. A partir daí, o espectador é jogado em um mundo de dor, isolamento, culpa, medo e loucura.
Após a perda do filho, o casal tenta se reestruturar e parte do marido/pai – um terapeuta cético e arrogante – a ideia de ir para uma floresta onde a esposa/mãe confrontaria seus maiores medos. Então estamos diante de um clichê dos filmes de terror: um homem, uma mulher e uma floresta sombria. Mero engano. Os clichês começam e param por aí. Não há monstros, nem o sobrenatural. Há sentimentos puramente humanos. O terror ali existente está simplesmente na alma de ambos, em especial da mãe interpretada por Charlotte Gainsbourg.
Ela vive uma mulher despedaçada pela culpa de perder um filho e ao mesmo tempo ter que conviver com seu extremado desejo sexual. O sexo aliás, é outro elemento constante na narrativa. Mas se no início ele era belo e apaixonado, no decorrer da estória torna-se dolorido e remete ao preceito bíblico de Adão, Eva, paraíso e pecado – tanto que a floresta é por várias vezes chamada de Éden. Os corpos que agora se tocam, já não são mais atraentes e sim grotescos e desesperados.
Diante de uma espiral incontrolável de loucura, a personagem de Charlotte luta contra seu terror interno com a desesperança de quem sabe que dali não sairá salvação, apenas mais dor e culpa. Sem nenhum pudor, Von Trier mostra como a mente humana pode ser perturbada e perturbadora. Se para muitos ele já era considerado louco e misógino, agora então quem compartilha dessa opinião terá muito mais motivos para reforçá-la. Há violência, sadomasoquismo, pornografia e até uma cena de auto-muliação genital que pode deixar os mais sensíveis ofendidos. Mas a essa altura, o filme já mostrou coisas muito mais chocantes. E elas não são explícitas. Von Trier se firma mais uma vez como diretor capaz de mexer com os sentimentos mais podres da alma humana. E é justamente por isso que seus filmes, e em especial Anticristo, são ao mesmo tempo tão necessários e tão repulsivos.

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