sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O pior filme de terror é o que se passa dentro de cada um


Para muitos, Anticristo será o filme mais chocante que verão em suas vidas. Tenho os dois pés atrás com esses filmes feitos para chocar, mas fui ao cinema com boa-vontade e expectativas. Talvez porque simpatize com a obra de Lars Von Trier, ou simplesmente por curiosidade. A sequência inicial do filme é de uma beleza quase constrangedora. Enquanto os pais transam passionalmente, o filho pequeno apronta sozinho pela casa. As imagens são belas e a trilha, dramática. Há um equilíbrio impressionante entre as duas situações. Em câmera lenta e preto-e-branco artístico, closes pornográficos convivem em harmonia com a inocente queda de uma criança pela janela do apartamento. A partir daí, o espectador é jogado em um mundo de dor, isolamento, culpa, medo e loucura.

Após a perda do filho, o casal tenta se reestruturar e parte do marido/pai – um terapeuta cético e arrogante – a ideia de ir para uma floresta onde a esposa/mãe confrontaria seus maiores medos. Então estamos diante de um clichê dos filmes de terror: um homem, uma mulher e uma floresta sombria. Mero engano. Os clichês começam e param por aí. Não há monstros, nem o sobrenatural. Há sentimentos puramente humanos. O terror ali existente está simplesmente na alma de ambos, em especial da mãe interpretada por Charlotte Gainsbourg.

Ela vive uma mulher despedaçada pela culpa de perder um filho e ao mesmo tempo ter que conviver com seu extremado desejo sexual. O sexo aliás, é outro elemento constante na narrativa. Mas se no início ele era belo e apaixonado, no decorrer da estória torna-se dolorido e remete ao preceito bíblico de Adão, Eva, paraíso e pecado – tanto que a floresta é por várias vezes chamada de Éden. Os corpos que agora se tocam, já não são mais atraentes e sim grotescos e desesperados.

Diante de uma espiral incontrolável de loucura, a personagem de Charlotte luta contra seu terror interno com a desesperança de quem sabe que dali não sairá salvação, apenas mais dor e culpa. Sem nenhum pudor, Von Trier mostra como a mente humana pode ser perturbada e perturbadora. Se para muitos ele já era considerado louco e misógino, agora então quem compartilha dessa opinião terá muito mais motivos para reforçá-la. Há violência, sadomasoquismo, pornografia e até uma cena de auto-muliação genital que pode deixar os mais sensíveis ofendidos. Mas a essa altura, o filme já mostrou coisas muito mais chocantes. E elas não são explícitas. Von Trier se firma mais uma vez como diretor capaz de mexer com os sentimentos mais podres da alma humana. E é justamente por isso que seus filmes, e em especial Anticristo, são ao mesmo tempo tão necessários e tão repulsivos.

domingo, 23 de agosto de 2009

Time may change me... but I can't trace time

Eu nem sei por onde começar. Pelas mudanças, talvez? Nesse tempo todo – longo, longo tempo – mudei de cidade, mudei de vida, mudei de casa (algumas vezes, na verdade), mudei de hábitos, mudei de ares. Mudei de amigos, de amores, de crises, de personalidades. Refiz o que podia do que me sobrou dos cacos, recolei tudo para depois quebrá-los de novo. E novamente buscar aquele tubinho de cola que escondo embaixo do travesseiro. Um ciclo vicioso, para ser bem clara. Mudei de computador, desaprendi e reaprendo a usar essas coisas. Eu nunca fui boa para tecnologia. Esse ponto eu não mudei em nada, continuo sendo uma velha old-fashioned. Mudei de classe social, de posição política (mentira!!), de ideologias. As últimas poucas que tinha foram morrendo, mas as que sobraram ficaram mais fortes. Mudei de perspectiva. Cortei os cabelos, comprei roupas novas, levei pés na bunda, perdi empregos, comprei discos. Perdi meu passaporte, minha dignidade, minha fé e um pouco da minha sanidade. Vi gente entrar e sair da minha vida sem pedir licença. Vi outras insistindo em existir lá no fundo da minha mente. Menti, contei verdades absurdas. Quis recomeçar tudo do zero e quis jogar tudo para o alto. Não fiz nada. Dormi, acordei. Emagreci, engordei. Tentei ver o mundo ao meu redor e percebi que tudo acabava no meu umbigo. Apostei alto e perdi oportunidades. Vendo bem, não mudei quase nada.

Eu sempre soube que iria voltar.
Só não sabia quando, nem como e muito menos o porquê.